Da neutralidade à implicação: considerações sobre a construção de um espaço psicanalítico de escuta grupal
DOI:
https://doi.org/10.69751/arp.v14i28.6082Resumo
Este artigo discute os conceitos de neutralidade e implicação na Psicanálise a partir da experiência do projeto de extensão “Tá na Roda: intervenções clínico-políticas em espaços educacionais”, desenvolvido no Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O projeto cria espaços de escuta grupal com orientação psicanalítica voltados à elaboração de sofrimentos de origem social. Desde 2021, o campo de atuação é um pré-vestibular social cujo público-alvo são, majoritariamente, jovens entre 17 e 25 anos moradores de favelas da Zona Sul do Rio de Janeiro. A proposta busca articular pesquisa, intervenção e clínica, questionando a valorização da neutralidade e da objetividade típica das ciências modernas. A pesquisa-intervenção oferece um referencial para reconhecer as interferências das pesquisadoras e valorizar a produção de conhecimento construída com os jovens. Levando em consideração as posições de pesquisadoras e ao mesmo tempo de psicóloga com orientação psicanalítica, é possível refletir sobre os lugares de escuta e a responsabilidade ético-política da pesquisa, em prol da formulação de um trabalho implicado e situado. Defende-se, então, a ética da reserva e da implicação, que preconiza que o analista coloque em reserva partes da sua vida e, ao mesmo tempo, se implique no encontro com o outro e os afetos ali produzidos. Assim, a discussão sobre a neutralidade e a implicação na pesquisa e na clínica psicanalítica visa construir uma epistemologia situada no seu território de atuação e aberta para discutir as responsabilidades éticas de sua presença.